Christian Grey é meu pastor, putaria não faltará!

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Por: Marcos Marcellus Holtz

Certo dia fui pego de surpresa por uma voraz, turbulenta e acalorada onda de tesão. Bacana só se eu pudesse saciar essa súplica natural por prazer, que exalava da minha carne, correndo ao banheiro ou então devorando a minha gata contra a parede, arrancando sua calcinha, colocando seus peitos para fora da blusa, puxando seus cabelos e trilhando minha língua de baixo à cima de seu pescoço, terminando nos vãos de suas sensíveis orelhas. Mas não, eu estava rodeado de estranhos na conveniência de um posto de gasolina. Desesperado, corri para a desagradável fila do caixa e, passo a passo, a salvação. Em meio a revistas de automóveis, culinária e fofoca, reluziam estrelas douradas entre pernas gostosas, fazendo suspense ao conteúdo que eu só iria deliciar no interior de suas páginas: eram os famosos contos eróticos de caminhoneiro.

Eu, que ainda palitava o saldo do gorduroso croquete de calabresa entre meus dentes e arrotava a laranjinha Água da Serra, a caminho do caixa, não pensei duas vezes: meti a mão na revistinha como quem agarra a bunda de uma potranca, suava tesão puro, gente, juro! Ali mesmo comecei a folhear, sem o mínimo recalque. Naquele momento o mundo havia parado para que meus olhos contemplassem aquelas bucetonas suculentas sendo carcadas por longos e viris mastros, ou então aquelas faces lambuzadas pelo jorro da vida, ilustradas por aqueles balõezinhos que vinham da boca da cachorra: “vai, joga esse leitinho quente em mim”. Tudo lindo e ensurdecedoramente silencioso quando escutei a balconista, uma véia quase cuspindo a dentadura, falar: “próximo”.

Aí voltei de Marte, e confesso que já no primeiro segundo a Terra não mais me agradava. Estávamos frente a frente, a senhora olhando pra mim por cima dos óculos e eu com a comanda de consumo em uma mão e a pornografia em outra, sem o mínimo constrangimento. Mas, o que causou meu desprazer em retornar ao quintal terráqueo estava à minha esquerda. Disparando-me caras e bocas de nojo, provavelmente pelo produto que eu, em êxtase e em público, consumia, estavam três gatinhas. Supostamente de família, as cheirosas, lindas e vadiamente sexys, preparavam-se para primeiro: demonizar-me assim que eu me retirasse do estabelecimento; Segundo: discutir quem ia pagar suas contas somadas de míseros 15 reais, já que ali não havia trouxa algum para quitar os goles de suas cervejinhas importadas; Terceiro: arrasar na balada, dançando músicas que as apontem como vagabundas, invadir um camarote e beber glamour quase de graça. Tudo isso pelo vantajoso preço de uma trepada com alguém que às coloque dentro de um luxuoso caminhonetão, possivelmente financiado, mas isso não importa, quando o assunto é status, o indispensável é o “quo”.

É claro que não dei bola pras cadelinhas do posto, estou acostumado a conviver com esse preconceito bobo, triste ser viciado em sexo hoje em dia, as pessoas lhe tratam como um maníaco e não como um bravo perpetuador da raça humana. Mas, tudo bem, eu só queria mesmo era chegar a casa e dar um trato na nega véia, êta porra! Abri a porta, sala escura, uma luz fraca pela fresta inferior da entrada do nosso quarto, tirei o tênis, e claro, a meia, um pisão em algo molhado ao chão, tateei e era a lingerie dela. “A danada tá em ponto de bala”, pensei. Entrei em nosso ninho de amor e a casa caiu. O barulho do chuveiro denunciava o banho da minha amada, enquanto ele, ah, aquele filho da puta descansava tranquilo, após 72 gozadas cheias de cor, escancarado em minha cama. Contive um acesso brutal de fúria, abaixei a cabeça, resolvi dar as costas e partir, dar corda ao alcoolismo que namora minha crise existencial crônica. Para não atormentar a vizinhança com um escândalo policial deixei Christian Grey lá, peladão, entre as páginas 344 e 345, sobre o meu humilde colchão Castor.

Fui pra onde? Bar do Marzinho! Ancorei no balcão e chorei, mas chorei. Pedi uma Kaiser, peguei meu celular Motorola quebrado e liguei para meus fieis amigos. Estava inconsolável, pois sou o “puto da cara” da turma, em seguida estavam todos ali, a legião dos cornos, também conhecida como Demon League: o Bruno, o Rapha, o Rad, o Reck, o Juneta, o Linguiça e até o Zégui saiu correndo da faculdade para comer um rollmops e amparar o amigo escorneado. Estilo Jack Nicholson em “O Iluminado”, revirava os olhos e cabelos em busca de respostas, eu era o último a saber. Me perguntava como? Tudo estava acontecendo ali, bem debaixo do meu nariz. Eu não tive a genialidade necessária de enxergar o óbvio e escrever esse Best-seller. É essa a minha dor, e agora estou aqui, derrotado, vivendo os dias de um jornalista fodido que sou.

Era só fazer lasanha de microondas e chegar ao trabalho dizendo que hoje fez uma massa espetacular no almoço. Porra, Bruno, era só edificar os dois pilares que sustentariam a figura grotesca que a sociedade esculpiu e ao final, como um Da Vinci paraguaio, batizou de “mulher moderna”. O primeiro é o dinheiro e suas ramificações: luxúria, carros, tecnologia de ponta, aviões, helicópteros e mansões. Já o segundo, sexo. Claro e aí acho que a escritora exagerou, porque o Ricardão Grey não precisava nem ser bonito, cifras compram tudo. Mas, tá, como grande parte da população feminina não goza, ou finge que… Bingo! Anarquiza metendo até a Torre Eiffel na buceta da submissa que orgasma loucamente até pelas frieiras. Ah… A submissão, Raphinha, palavra pela qual tantos sutiãs foram queimados em nome de sua extinção, do expurgo do “ser” mulher como um mero objeto. Fato é que pseudo mulheres envergonham o belo legado feminista.

“Mas vão te chamar de machista, man”, disse o Rad, com sua delicadeza peculiar. Mas é claro que vão! De ignorante, intolerante, radical, mente fechada, dono da verdade e tudo mais. Quer saber, Reck? Foda-se! Sabe qual a diferença do nosso machismo para o machismo do Grey? O machismo dele é rico, e com dinheiro, amigão, vale até punho no cu. Agora experimenta tu brincar de “pula pirata” com a tua gata, pra apimentar a relação, quem sabe alcançar o “ponto G”. Achamos o misterioso ponto “G”, rapazes, “G” de Grey! Uiii, mas, tadinho do personagem, ele foi abusado quando jovem. E eu, que era sufocado pela gigantomastia da “alemoa” suada que cuidava de mim e de meus irmãos antigamente? Tudo bem, não era alemã, era uma “negona”, mas sabe como é o politicamente correto, a gente não pode sair do trilho, falar verdade, a fantasia é muito mais doce. “Sociedade de merda”, gritou o Zégui, socando o balcão com a mão, derramando cerveja em si mesmo.

A conversa foi ficando empolgante, tipo conferência em um “clube de machos” estilo “Batutinhas”. Perguntei aos amigos quais seus grandes sonhos de adolescência. Na hora o Linguiça respondeu: “o meu era ser ator pornô, mas com o tempo, e apesar do meu apelido, meu pinto me mostrou que era melhor seguir outro caminho”. Impressionante, fomos unânimes, compartilhamos do mesmo sonho juvenil, bombar umas gostosas, comer uns rabões e esbanjar o gran finale com belas gozadas faciais. Mas, com o amadurecimento acabamos buscando outros objetivos, ultrapassando fases, construindo a vida de forma menos, digamos, excêntrica. Do outro lado do front as mulheres, que aos 15 anos sonhavam com o grande amor, enquanto nós estávamos fazendo campeonato de quem batia mais punheta em uma tarde. Hoje, o grade paradoxo se abre como buraco negro na galáxia, elas retrocederam, agora é a busca incessante é pelo cara rico (foda-se se é feio e burro), que banque sua vadiagem legalizada pela high society. E o pior, elas falam isso de peito aberto, sem a menor vergonha de admitir subliminarmente: “sou uma puta barata”!

“Bora tomá a saideira no Balik!”, intimou Juneta. Aí partimos para o velho e querido puteiro portuário com fachada de petiscaria, umas amigas caídas e tristes, e nossa fiel companheira Jukebox. Lá eu vi o sofrimento dessas trabalhadoras dignas, as marginalizadas, as “sujas”, as chacotas de putinha de balada. Que merda, o mundo é injusto mesmo, é aproveitador, é interesseiro, é nome na lista e boquetinho no Audi, irado, amigaaaa! Devidamente alcoolizado resolvi discursar na zona. Os brothers iam à loucura enquanto as putas me aplaudiam e eu lascava a tese de que os heterossexuais estavam na contramão dos mandamentos divinos. Sempre que nos reuníamos era assim, uma orgia de alegria, risadas, bebedeira e histórias para contar. Pedi todos em casamento, e como Grey, propus uma cláusula contratual: a que abolia apenas o sexo entre as partes. Boa!

Abraçados, enquanto o sol dava as caras iluminando o chão grudento do inferninho e o movimento no Porto de Itajaí já tumultuava as ruas, rumamos nossas casas, de volta para nossas existências simples. Poder e dinheiro traem homens e mulheres, iludem, fantasiam, nos hipnotizam. A questão não é o Christian Grey que enraba loucamente sua escrava, fazendo-a explodir em gozo múltiplo, mas sim o empobrecimento intelectual, a supervalorização e busca pela materialização de fantasias regadas pelo ter, e não pelo ser. A indústria cultural é um baita de um caralhão que bate em nossos lábios sedentos pela esporrada nada nutritiva. Dopados pelo sêmen da futilidade, achamos isso tudo lindo, ansiosos para se lambuzar. Grey poderia ser uma espécie de Messias do macho, propagando a putaria pelo mundo, mas não é essa doutrina que queremos, muito menos essa Bíblia. Leiam o livro, encharquem suas calcinhas, masturbem-se, conheçam seus corpos, aprendam a gozar, deixem-se dominar, mas esqueçam do pobre detalhe material. Porque a mulher livre, linda e louca, não é a puta, podre e porca.

Toca o telefone e mando um “alô” meio embriagado.
– Onde tu tá? Vem pra casa!
– Se me confundir com um tal de Christian vou comer teu cu, amor.
Tu, tu, tu, tu, tu…

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